segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Das 9 ás 5.

Eu sempre apreciei o mundano. Eu sempre dou o meu melhor quando estou envolvido em algo completamente sem sentido ou quando ninguém espera nada de mim. Eu trabalhava como segurança em um pequeno banco na periferia da cidade. A única coisa que eu amava mais do que ficar em pé, imóvel, na porta da frente, era o cheiro de desinfetante que me cumprimentava todas as manhãs.

E sim, eu sei que eu sou estranho. E eu não poderia me importar menos com isso. Eu não sou tão estranho quanto o ladrão que quebrou minha competição pessoal de marasmo, no entanto. Eu havia sido contratado para deter os bêbados e mendigos que de vez em quando passeavam por aqui visando conseguir alguns dólares dos funcionários, ou pior, de um cliente em seu caminho para fora do local.

Mesmo nestas situações lindamente abismais, eu sempre estou à postos com uma lista interna de frases comuns que eu usaria para me dirigir à essas pessoas, como uma espécie de serviço de atendimento automatizado: 1.) "Acalme-se senhor, por favor." 2.) "Podemos falar sobre isso do lado de fora, senhor." 3.) "Eu compreendo, senhor." 4.) "Nós não queremos nenhum problema, senhor."

Aquele ladrão, no entanto, me jogou em um loop. Estava perto da hora de fechar, e eu sabia que ele era um problema no segundo em que ele passou pelo meu olhar. Ele usava roupas pretas, botas e um trench coat, e sob o seu casaco ele vestia um moletom com um capuz vermelho brilhante com a capa para cima. Ele também usava óculos escuros. Com toda certeza um típico causador de problemas.

"Desculpe-me, senhor!" Gritei assim que aquele homem passou por mim. Ele congelou por um momento, mas não se virou. Quando sua mão pálida entrou no bolso do casaco, eu sabia que estava em apuros. "Senhor, eu vou ter de lhe pedir para virar..." Eles não me deixavam carregar uma arma, e eu mesmo não queria uma até aquele momento estranhamente desconcertante. "Calma, garoto", o homem falou. Garoto? Essa é nova! Com a idade que tenho eu poderia facilmente ser o seu avô!

"Mais uma vez, vou ter que pedir para você se virar, senhor..." Eu gesticulei para as mulheres por trás da recepção irem ao chão. "Muito bem", ele respondeu. O homem se moveu sem sair do lugar, o que quer dizer que ele praticamente se virou para me enfrentar sem nem mesmo mover os seus pés. Foi um bom truque, mas nada que você não possa ver com alguns daqueles desprezíveis dançarinos de rua.

"Ponha as mãos pra atrás da cabeça, senhor." Ele o fez, enquanto um sorriso macabro se espalhava pelo seu rosto quase mortalmente branco. Quando me aproximei dele para realizar a revista, notei que seus dentes pareciam terem sido afiados; todos eles, como se ele tivesse investido em alguma cirurgia dental muito cara. A teoria da cirurgia cara não parecia provável, pois ele cheirava a mofo velho.

"Desculpe, garoto", o homem exclamou no mesmo tom monótono, "Você fez disso um mal necessário." Com reflexos rápidos, o ladrão agarrou-me pelo pescoço com uma mão e colocou a outra mão entre as minhas pernas, levando-me em direção a sua cabeça em um movimento bruscamente suave. Eu fiz um som horrível, semelhante a de um cão sendo enforcado. "Devo manter as mãos por atrás da cabeça agora?" Ele riu enquanto eu sentia o meu suprimento de ar sendo rapidamente comprimido para fora de mim. Meu rosto ficou vermelho. Felizmente (ou infelizmente, dependendo do seu ponto de vista), ele finalmente me deixou ir, jogando o meu corpo contra o chão como uma boneca de pano. 

"Agora, se vocês forem gentis", ele se voltou para a mesa enquanto eu me contorcia no chão com a dor de vários ossos quebrados, "acho que sabem o que eu quero." As mulheres obedeceram, e eu não as culpo! Uma após a outra, elas passaram pela pesada porta de metal e voltaram com tudo o que podiam carregar. Parecia que não importava quantos sacos elas colocassem na bolsa do ladrão, ele permanecia indiferente ao peso. Assim que aquele estranho homem se virou para sair do prédio, ele me mostrou aqueles dentes, afiados como facas, para mim. Eu acho que aquilo deveria ser um sorriso. Eu não acho que eu vou voltar a trabalhar lá, mesmo depois de já ter encerrado as minhas sessões de terapia. 

Eu gosto de viver os meus dias sem intercorrências ou incidentes como esses. Eu gosto da paz, da tranquilidade e da segurança que vem de uma rotina pré-estabelecida. E se não se pode encontrar isso nem mesmo trabalhando em um banco de sangue, então eu não sei onde é que este mundo vai parar.



Via:Lua Pálida.

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