quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Lua de Mel


Os olhos do recepcionista do hotel se arregalam com a mera menção do número.

"732? Vai por mim cara, você não quer esse quarto."

Todo ano era a mesma coisa. Funcionário diferente, as mesmas perguntas. Normalmente eu suporto os intermináveis avisos, mas a peregrinação deste ano foi particularmente desagradável. O carro ameaçava "morrer" à cada parada; as nuvens estavam inchadas, negras e cheias de chuva. Os dias chuvosos sempre foram os mais difíceis. Decidi cortar a discussão pela raiz. Com um gesto rápido e improvisado, eu joguei um maço de notas em cima do balcão e voltei a falar. "Quarto 732, por favor."

"Você não..."

"Me dê o quarto 732 só por esta noite. Pode ficar com o troco."

Naquele momento, a expressão no rosto do recepcionista era quase cômico. Em seguida, ele guardou as notas consigo e me entregou a chave. Me afastando do balcão, eu caminhei até o familiar labirinto de corredores. Eu juro que naquele momento, naquela caminhada, eu conseguia sentir as perguntas não ditas do recepcionista. Por quê esse quarto? Você não ouviu os boatos? Você não tem medo?

Sempre me certifico de estar fora da vista antes que ele decida finalmente as perguntar. Quando eu vim aqui pela primeira vez... não, eu não. Nós. Quando nós viemos aqui pela primeira vez, era um estabelecimento de quatro estrelas, com corredores bem iluminados, elevadores funcionando e com serviço de quarto. O elevador parou de funcionar há três anos, e quando as lâmpadas nos corredores queimaram, ninguém se preocupou em substituí-las. Eu empurro a porta para atravessar a escadaria. Há figuras agachadas na escuridão. Eu as ignoro, subo as escadas e esmago escombros com meus pés.

Perdi a respiração por um momento assim que cheguei ao sétimo andar; tanto tempo se passou. Eu já deveria estar preparado. Às vezes eu pergunto a mim mesmo por que o hotel caiu em desuso tão rapidamente. Não pode ter sido apenas pelo fato de que alguém morreu aqui. Pessoas morrem em seus quartos de hotel o tempo todo. Talvez... tenha sido pelo jeito que ela morreu. Talvez o horror de seus momentos finais tenham sido tão profundos que permearam todos os andares e corredores. O som da porta do sétimo andar era alto e estridente como um grito de mulher. Franzindo a testa, eu marchei pelo corredor, ouvindo os sons das gotas no teto pingando. Encontro a suíte familiar e coloco a chave na fechadura. A porta resiste por um piscar de olhos, e em seguida, se abre. Por um momento eu fiquei ali olhando para a sombra presente no quarto vazio, dividido entre o instinto de correr e os votos que fiz. Isso, assim como a discussão com o recepcionista, faz parte do meu ritual pessoal.

As luzes continuaram desligadas; Eu conheço a geografia daqui muito bem. Fechando a porta atrás de mim, atravesso a sala e sento-me na cama mofada. Era engraçado, de certa forma - mesmo depois de quase uma década, eu ainda tenho tremores. Olho para a escuridão por um tempo. Eu fecho os olhos e reproduzo na minha mente as visões dos objetos quebrados, da longa fita policial e do sangue seco.

Uma fagulha fria faz seu caminho por entre a minha espinha. Eu quase podia imaginá-la ajoelhada na cama atrás de mim, lentamente envolvendo os seus braços delgados em torno das minhas costas.

"Eu sinto a sua falta", digo em tom incerto. De todos os rituais que mantive para esta data horrível, esse é o mais importante. "Eu queria ter voltado mais cedo. Eu queria estar aqui antes. Eu queria..."

A voz dela ecoa da escuridão até às minhas orelhas.

"Eu sei."


Via:Lua Pálida

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