Reconheço estas coisas, mas não o seu contexto.
Uma parede. Uma pintura. Uma lareira. Uma lâmpada.
Eu as vejo e sinto que as conheço, mas eu não sei por quê. Quem alguma vez já me disse o que uma lareira é e para quê servia? Como posso reconhecê-la, mesmo sem memória de sua utilidade, e ainda ter visões disto queimando e trazendo calor ao ambiente? Temo que a iluminação dela para mim não tenha passado de uma frieira. Sinto como se eu fosse feito de desvios de neve tingidos pelo preto das sombras; notei também que minha mente só pode ser sentida no escuro. É por isso que passo pelos corredores à noite e quebro as lâmpadas nos momentos de pouca luz. Eu não consigo pensar enquanto estão iluminadas, e agora eu preciso mais do que nunca pensar. Eu preciso encontrar uma resposta.
Algo se move. É um boneco de cabelo preto. Ele veste um pijama. Eu já havia visto estes bonecos antes. Este parece ser o menor deles. Ele vai até a cozinha e eu o sigo, mantendo uma distância razoável. Sempre estive intrigado com os bonecos e seus movimentos mecanizados – deitando-se em suas camas, saindo e entrando de suas portas, sentando-se à mesa da sala de jantar com seus pratos e copos. Suas formas lhes dão vantagens que eu não possuo, e eu já os assisti por muitas vezes.
O boneco menor vai para a cozinha enquanto eu o sigo. Seu corpo minúsculo está cambaleando com o sono, e seus pés descalços produzem quase nenhum ruído assim que ele alcança a porta da geladeira e a abre. A luz atinge o boneco e a mim. Isso não deveria acontecer. Não agora que minha mente se manteve tão focada hoje à noite. Raiva e desespero lutam dentro de mim por controle enquanto eu impulsivamente puxo a maçaneta da porta, empurrando as mãos do boneco, e fechando a geladeira.
Percebo o que fiz quando o boneco caí em cima de mim.
A força de meu golpe o joga para trás, para o centro de mim. Sinto a sua pulsação – o ritmo de sua essência –, e a calmante reprodução de sua respiração. Minhas memórias recentes se confundem com algo vindo de dentro de sua cabeça pequena; eu posso ver uma grama verde, riachos cheios de peixes, botas de borracha enlameadas, um céu e um mundo além das escadas, armários e porões deste lugar.
Como desejo ver mais! Como desejo retirar todas as memórias presentes dentro deste boneco e torná-las minhas, ampliando o meu conhecimento com os segredos desta existência. Mas duram-se apenas segundos entre o empurrão que fecha a porta e a queda do boneco até o chão de pedra. Ele começa a chorar e a chorar, como um animalzinho ferido. Eu posso ouvir o resto deles, marchando pelas escadas e deixando um rastro de luz enquanto se aproximam. Há pouco tempo para fugir, então eu abro todos os armários de uma vez, procurando desesperadamente por um canto de escuridão para me esconder...
A luz elétrica da cozinha se liga.
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